domingo, 31 de maio de 2009

Rapidinhas: a Espanha em Technirama, troca-troca disneyano e tormentos de Kubrick


El Cid
El Cid, 1961 – Dirigido por Anthony Mann

Produção baseada na lendária história do herói espanhol, El Cid faz parte do mesmo tecido dos grandes épicos hollywoodianos populares nas décadas de 50 e 60: filme de costumes, cenas de batalhas épicas, tela larga (neste caso em Technirama), trilha retumbante de Miklós Rósza e, é claro, Charlton Heston no papel principal. Ao mesmo tempo, o fato de ter sido filmado em locações reais na Europa e não em estúdios cria uma ruptura com grande parte do que havia sido produzido até então. El Cid dá continuidade à aproximação mais contemporânea às películas épicas iniciada com Ben-Hur de William Wyler e, especialmente, Spartacus de Stanley Kubrick. O uso de castelos verdadeiros e os detalhes minuciosos dados aos figurinos e cenários conferem um ar de autenticidade que se distanciam do colorido lona de circo e sensibilidade kitsch das obras de Cecil B. DeMille.

A parte intimista do filme também não deixa a desejar, com Charlton Heston em uma de suas interpretações “larger than life” de maior sucesso – o que é algo positivo, já que sua grande presença significa que o protagonista nunca se perde em meio ao escopo gigante da produção. Sophia Loren fica com o papel mais ingrato, sendo vitima da típica caracterização feminina da época. O romance do casal Rodrigo (o El Cid) e Gimenez (Loren) ajuda a dar maior peso dramático à narrativa (e era notável que os atores se odiavam durante as filmagens), mas o filme ganha vida mesmo durante as cenas de batalha. Orquestradas e enquadradas com maestria por Anthony Mann, as impressionantes tracking shots em meio a milhares de figurantes cavalgando à beira-mar nos levam a refletir o motivo de El Cid não ser tão lembrado quanto deveria.

Disponível em DVD em edições de distribuidoras duvidosas no Brasil e em uma ótima edição dupla nos EUA pela Miramax


Nascido para Matar
Full Metal Jacket¸ 1987 – Dirigido por Stanley Kubrick

A guerra do Vietnã é vista pela ótica de Kubrick em uma das obras mais marcantes já produzidas sobre o assunto. Nascido para Matar é obviamente dividido em dois atos – o primeiro, superior, mostra um grupo de recrutas da marinha sob o rigoroso treinamento fascista do Sgt. Hartman (em fantástica interpretação de R. Lee Ermey). Algo incomum em sua obra, Kubrick cria um personagem que estabelece uma relação direta com o espectador através do malfadado soldado Pyle (Vincent D'Onofrio). Seu sofrimento e sentimento de exclusão preparam o terreno para a segunda parte da narrativa, na qual vemos as máquinas de matar na qual os recrutas foram transformados.

Enquanto a segunda metade da película acabe muitas vezes caindo no lugar comum de tantos outros filmes de guerra (propulsionado também pela falta de um protagonista marcante), o desenrolar dos momentos finais é especialmente impactante. A vertente de Kubrick ainda se mostra neutra, mostrando os efeitos devastadores do conflito (mais em termos psicológicos do que físicos), mas evitando criar uma obra condescendente ou moralista.

Disponível em DVD e Blu-ray pela Warner

Se eu Fosse a Minha Mãe
Freaky Friday, 1976 – Dirigido por Gary Nelson

Comédia da Disney que ganhou uma refilmagem em 2003 com Jamie Lee Curtis e Lindsay Lohan. Um dos filmes mais simpáticos produzidos sob a problemática gestão de Ron Miller nos anos seguintes à morte de Walt, mostra a já clichê história de troca de corpos entre mãe (Barbara Harris) e filha (uma Jodie Foster com 13 anos de idade).

Como esperado para o padrão Disney de filmes família dá época, a produção é extremamente leve, apelando muitas vezes para um tipo de humor campy e pastelão que estariam mais em casa em um filme de Charles Chaplin. Ainda assim, demonstra a vontade do estúdio de conectar com uma platéia adolescente ao abordar a relação da filha pré-adolescente rebelde e da mãe super exigente. Não obstante, ainda há um lado perverso no momento em que a filha no corpo da mãe começa a dar em cima do vizinho de 16 anos e a receber cantadas do marido (no caso, seu pai). As boas atuações da dupla principal fazem com que o filme segure as pontas até o fim, especialmente Barbara Harris, que parece se divertir muito no papel. Totalmente supimpa.

Disponível em DVD pela Buena Vista

Confissão do dia 1: encontrar elementos subversivos em filmes para família me fascina (e não, nada de mensagens subliminares)

Confissão do dia 2: quem diria que escutar um sargento obviamente privado de qualquer tipo de relacionamento social (...) vociferar uma enciclopédia de obscenidades poderia ser tão divertido

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